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6 apoftegmas

Abade Aquiaz

1

Certa vez chegaram-se três anciãos ao Abade Aquilaz, um dos quais tinha má fama. Disse um dos três: “Abade, faze-me uma rede de pescador”. Respondeu Aquilaz: “Não farei”. Outro pediu: “Faze essa caridade, para que tenhamos uma recordação de ti no mosteiro”. Ainda respondeu: “Não tenho tempo”. Falou o terceiro, o de má fama: “A mim faze uma rede, para que tenha algo das tuas mãos, ó Abade”. Este logo respondeu: “Eu ta farei”. Perguntaram-lhe então, à parte, os dois anciãos: “Por que é que, tendo-te nós rogado, não a quiseste fazer, ao passo que a este disseste: ‘Eu ta farei’? Respondeu-lhes o ancião: “A vós disse: ‘Não farei’, e não vos entristecestes, pois sabeis que não tenho ócio para isto. Para este, porém, se eu não fizesse, diria: ‘É por causa do meu pecado, de que ouviu falar o ancião, que não quis fazer’. Com isto, cortaríamos logo o liame (1). Levantei-lhe, portanto, o ânimo, para que não seja absorvido pela tristeza.”

2

Contou o Abade Betimes: “Certa vez que eu descia para a Cétia, deram-me algumas poucas maçãs para que as distribuísse de presentes aos anciãos. Ora bati à cela do Abade Aquilaz, a fim de lhe entregar a sua parte. Respondeu-me: “Em verdade, irmão, não queria que batesses à minha porta agora, nem mesmo se trouxesses maná; também não vás à cela de outrem”. Retirei-me então para minha cela; e, as maçãs, levei-as para a igreja.

3

Em dada ocasião o Abade Aquilaz foi à cela do Abade Isaías na Cétia, e encontrou-o a comer; lançara na tigela sal e água. Ora o ancião, tendo percebido que escondera a tigela atrás das suas cordas, perguntou-lhe: “Dize-me: que comias?” Respondeu aquele: “Desculpa-me Abade: fui cortar ramos, expus-me ao grande calor, e coloquei na boca um pedacinho de pão com sal. Todavia a garganta se me secara por causa o grande calor, e, em consequência, o bocado não descia; por isto fui obrigado a lançar um pouco de água no sal, para que assim pudesse comer. Desculpa-me, porém”. Ao que disse o ancião: “Vinde, vede Isaías a comer um bocado na Cétia. Se queres comer um bocado, vai para o Egito” (1).

4

Um dos anciãos foi ter com o Abade Aquilaz, e viu-o a lançar sangue da boca. Perguntou-lhe então: “Que é isto, Pai?” Respondeu o Abade: É a palavra de um irmão que me contristou; lutei para não lhe dizer que me fizera sofrer; pedi mesmo a Deus que me preservasse de lho dizer. Então tornou-se a palavra como que sangue em minha boca, cuspi-a, e obtive paz esquecendo a tristeza”.

5

Contou o Abade Amoés: “Fomos ter, eu e o Abade Betimes, com o Abade Aquilaz. E ouvimo-lo a meditar esta palavra: “Não temas, Jacó, descer para o Egito” (2). Ficou muito tempo a meditá-la. Depois, quando batemos, abriu-nos e interrogou: “Donde sois?” Nóis, receiando dizer “Das Célias”, respondemos: “Da montanha da Nítria”. Disse então: “Que hei de fazer por vós, pois vindes de longínqua região?” Mandou-nos entrar. Então observamos que ele trabalhava durante a noite, tecendo muita corda, e pedimos-lhe que nos dissesse uma palavra. Respondeu: “Desde o pôr do sol até agora, teci vinte braças; em verdade, não preciso delas; faço-o, porém, para que não se indigne Deus e me repreenda, dizendo: “Por que é que, podendo trabalhar, não trabalhaste?” Por isto é que me esforço e faço tudo que posso”. Edificados com isto, retiramo-nos.

6

De outra feita um famoso ancião da Tebaida foi procurar o Abade Aquilaz, e disse-lhe: “Abade, sou impelido a lutar contra ti”. Aquele respondeu: “Vai, ancião, também tu agora és movido contra mim?” O ancião, por humildade, respondeu: “Sim, Abade”. Ora, havia lá sentado junto à porta um velho cego e coxo. Disse então o ancião visitante: “Queria demorar-me aqui alguns poucos dias, mas por causa deste velho não posso permanecer”. Ao ouvir isto, o Abade Aquilaz admirou a humildade do visitante e disse: “Ele não é movido por fornicação, mas por inveja do demônio” (1).