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12 apoftegmas

Abade Bessarião

1

Dizia o Abade Dulaz, o discípulo do Abade Bessarião: “Certa vez, quando caminhávamos à beira-mar, senti sede e disse ao Abade Bessarião: ‘Abade, tenho muita sede’. O ancião, após haver feito uma oração, respondeu-me: ‘Bebe do mar’. Ora a água tornou-se doce, e bebi. Enchi também com ela uma vasilha para que não viesse mais a sofrer sede. Tendo-o observado, disse-me o ancião: ‘Por que tomaste reserva?’ Respondi-lhe: ‘Desculpa-me; é para que não sofra mais sede’. Retrucou o ancião: ‘Deus está presente aqui, e em toda parte está presente Deus’”.

2

Outra vez, dada uma necessidade, fez uma oração, atravessou o rio Crisoroa a pé, e continuou a caminhar na outra margem. Eu, admirado, prostrei-me diante dele e perguntei: “Como sentias os teus pés, quando caminhavas sobre a águas?! Respondeu o ancião: “Sentia água até os tornozelos; o que restava para cima, estava enxuto”.

3

De outra feita, quando íamos ter com certo ancião, surpreendeu-nos o pôr do sol. Então o Abade Bessarião orou: “Rogo-te, Senhor, pare o sol até que eu chegue a morada de teu servo”. E fez-se assim.

4

Ainda de outra feita fui à cela dele e encontrei-o de pé em oração, tendo as mãos estendidas para o céu. Passou quatorze dias a fazer isto. Depois dos quais, chamou-me e disse: “Segue-me”. E, saindo, pusemos-nos a caminho do deserto. Ora vim a sentir sede, e falei: “Abade, tenho sede”. O ancião tomou, então, o meu mantou e afastou-se à distância como que de um lanço de pedra. Fez oração e trouxe-mo cheio de água. Continuando a andar, chegamos diante de uma gruta; entramos e aí encontramos um irmão sentado a tecer cordame; não levantou a cabeça para nós, nem nos saudou, nem de modo algum quis entrar em conversa conosco. Disse-me, pois, o ancião: “Vamo-nos daqui; provavelmente não foi revelado a este irmão que deva conversar conosco”. E continuamos em direção de Lico, até chegarmos à cela do Abade João. Saudamos a este, fizemos oração; depois do que, sentaram-se a puseram-se a falar da visão que tivera. O Abade Bessarião disse então: Saiu um decreto para que sejam destruídos os templos”. De fato, fez-se assim, e foram destruídos. Quando voltávamos, passamos de novo diante da gruta onde víramos o irmão. E disse-me o ancião: “Entremos até ele; talvez Deus lhe tenha revelado que fale conosco”. Ao entrar, porém, encontramo-lo consumido pela morte. Falou então o ancião: “Vem, irmão, envolvamos o corpo dele, pois foi para isto que Deus nos mandou aqui”. Ora, quando o envolvíamos para sepultá-lo, depreendemos que era uma mulher. O ancião admirou-se e disse: “Eis como até mulheres triunfam sobre Satanás, enquanto nós nas cidades vivemos indecorosamente”. E, tendo dado glória a Deus, o qual protege a quem o ama, fomo-nos dali.

5

Certa vez foi à Cétia um demoníaco, pelo qual se fez oração na igreja. O demônio, porém, não saía, pois era pertinaz. Disseram então os clérigos: “Que havemos de fazer a este demônio? Ninguém o pode expulsar se não o Abade Bessarião; mas, se rogarmos a este, nem à igreja há de vir. Façamos assim, portanto: eis que ele vem à igreja de manhã antes dos outros; ponhamos, pois, o demoníaco a dormir no lugar do Abade, e, quando este chegar, levantemo-nos para a oração e digamos-lhe: ‘Desperta também este irmão, ó Abade’. Assim fizeram; quando o ancião chegou de manhã, levantaram-se para a oração e disseram-lhe: “Desperta também este irmão”. Então falou-lhe o ancião: “Levanta-te, sai”. E logo dele saiu o demônio, ficando o mesmo curado a partir daquela hora.

6

Disse o Abade Bessarião: “Fiquei quarenta dias e noites em meio a espinhos, em pé, sem dormir”.

7

Certo irmão que pecara, foi expulso da igreja pelo presbítero. Então o Abade Bessarião, levantando-se, saiu com ele, dizendo: “Também eu sou pecador”.

8

O mesmo Abade Bessarião disse: “Durante quarenta anos não me deitei de lado, mas dormia sentado ou em pé”.

9

O mesmo disse: “Quando te acontecer viver em paz e não lutar, então sê mais humilde, de modo que, introduzindo-se uma alegria estranha, nos vangloriemos e sejamos entregues à pugna (1). Com efeito, Deus muitas vezes, por causa das nossas fraquezas, não permite sejamos entregues à luta, a fim de que não pereçamos”.

10

Um irmão que morava com outros irmãos, perguntou ao Abade Bessarião: “Que hei de fazer?” Respondeu-lhe o ancião: “Cala-te e não te compares com os outros”.

11

O Abade Bessarião, ao morrer, dizia que o monge deve ser, como os Querubins e os Serafins, todo olho.

12

Os discípulos do Abade Bessarião narraram que a vida deste se passou como a de uma ave ou a de um peixe ou a de um animal terrestre; o que quer dizer: todo o tempo de sua existência, ele o viveu sem perturbação nem preocupação. Com efeito, não tinha os cuidados da casa; o desejo de ver outras terras não parecia possuir a sua alma; nem o afetavam a saciedade de uma vida prazenteira, nem a construção de moradas, nem o comércio de livros; mas todo ele parecia absolutamente livre das paixões do corpo, nutrido da esperança das coisas futuras, firme da fortaleza da fé; resignado como um prisioneiro aqui e ali, tolerava o frio e a nudez; embora queimado pelo ardor do sol, sempre vivia ao ar livre; penetrava nos lugares escarpados do deserto como um errante, e comprazia-se muitas vezes em caminhar pela vasta e desabitada região de areia como por um mar. Dado que chegasse a um lugar cultivado, onde os monges cenobitas habitam, sentava-se diante das portas, punha-se a chorar, e lamentava-se como alguém que escapara de um naufrágio. Depois, caso saísse um dos irmãos e, encontrando-o sentado como um dos mendigos deste mundo, se aproximasse e lhe dissesse compadecido: “Por que choras, ó homem? Se careces de algo de necessário, recebê-lo-ás conforme as nossas possibilidades; entra apenas e toma parte em nossa mesa comum, recobrando o alento”, então respondia ele que não podia permanecer debaixo de algum teto antes que encontrasse os bens de sua casa; dizia ter perdido de modos diversos muitas riquezas, pois caíra em mãos de piratas, fora vítima de um naufrágio e degradado da sua nobreza de origem, feito infame, ele, que era considerado entre os famosos. Entristecido por esta narrativa, o irmão entrava em casa, apanhava um bocado de pão, e lho entregava, dizendo: “Toma isto, Pai; as outras coisas, Deus, como dizes, as restituirá: pátria, família, a riqueza de que falaste”. O Abade, então, ainda mais entristecido, estremecia veementemente, acrescentando: “Não sei dizer se poderei encontrar aquilo que, depois da ruína, procuro; todavia, maior prazer ainda terei em sofrer contínuos perigos diariamente até a morta, sem encontrar repouso das minhas desmedidas desgraças. É preciso que, sempre a vaguear, eu termine o curso”.