17 apoftegmas
Santo Epifânio, Bispo De Chipre
Narrou Santo Epifânio, bispo, que, nos tempos do bem-aventurado Atanásio o Grande, as gralhas voavam em torno do templo de Serapis, e gritavam sem tréguas: “Cras, cras”. Os pagãos, então, foram ter com o bem-aventurado Atanásio e perguntaram-lhe: “ó velho mau, dize-nos o que clamam as gralhas”. Respondeu: “As gralhas clamem ‘Cras, cras’; ora ‘Cras’ na língua dos Ausônios (1) significa ‘amanhã’”. E acrescentou: “Amanhã vereis a glória de Deus”. Pouco depois, com efeito, foi anunciada a morte de Juliano Imperador; em consequência, os pagãos se reuniram e puseram-se a gritar contra Serapis: “Se não querias bem a ele, por que recebias suas oferendas?”
O mesmo contou que em Alexandria havia um cavaleiro filho de uma mulher chamada Maria. No decurso de um certame hípico, esse homem caiu; levantou-se, porém, passou à frente daquele que o havia derrubado, e venceu. O povo, então, clamou: “O filho de Maria caiu, levantou-se e venceu”. Estando ainda a ressoar este gritou, propagou-se na multidão, a propósito de Serapis, a notícia de que o grande Teófilo, já de volta do exílio, derrubara a estátua de Serapis e se apoderara do templo.
Foi comunicado ao bem-aventurado Epifânio, bispo de Chipre, pelo Abade do mosteiro que este teve na Palestina: “Em virtude de tuas preces, não nos descuidamos da nossa regra, mas com zelo celebramos a hora terceira, a sexta e a nona”. Epifânio, porém, censurou-os, mandando-lhes dizer o seguinte: “É manifesto que sois negligentes, deixando de orar nas outras horas do dia. Com efeito, o verdadeiro monge deve ter sempre a prece e a salmodia em seu coração”.
Certa vez Santo Epifânio mandou um emissário ao Abade Hilarião, a fim de pedir-lhe o seguinte: “Vem, e avistemo-nos ainda antes de deixarmos o corpo”. Ora Hilarião foi, de fato, ter com Epifânio e os dois muitos se alegraram com o encontro. Quando estavam a comer, serviram-lhes uma avezinha. Tomando-a, o bispo deu-a ao Abade Hilarião; este, porém, replicou: “Perdoa-me, pois que, desde que tomei o hábito, não comi algo de imolado”. Respondeu o bispo: “E eu, desde que tomei o hábito, não deixei que alguém fosse dormir tendo alguma coisa contra mim, nem fui dormir tendo algo contra quem quer que fosse”. Disse-lhe então o Abade: “Desculpa-me, pois a tua virtude é maior do que a minha”.
O mesmo dizia: “O tipo de Cristo, Melquisedeque, abençoou Abraão, a raiz dos judeus; por conseguinte, muito mais a Verdade mesma, Cristo, abençoa e santifica todos os que nele creem”.
O mesmo dizia: “A Cananéia clama, e é atendida (1). A hemorroíssa silencia e é dita bem-aventurada (2); o Fariseu fala alto e é condenado; o publicano nem abre a boca e é ouvido” (3).
O mesmo dizia: “Davi, o profeta, orava em hora inoportuna, levantava-se à meia-oite, antes da aurora rezava, na aurora oferecia preces, de manhã rogava, à tarde e ao meio-dia suplicava, e por isto dizia: ‘Sete vezes por dia Te louvei” (4).
Disse também: “É preciso que os que têm meios, possuam os livros cristãos. O fato de se verem esses livros já por si torna-nos lentos para o pecado e exorta a que nos ergamos mais ainda para a justiça”.
Disse também: “Sustentáculo poderoso para não se cometer pecado é a leitura das Escrituras”.
Disse também: “Grande precipício e profundo abismo é desconhecer as Escrituras”.
Disse de novo: “Grande desperdício de salvação é não conhecer nenhuma das leis divinas” (5).
O mesmo dizia: “Os pecados dos justos são cometidos pelos lábios, ao passo que os dos ímpios procedem do corpo inteiro. Por isto cantava Davi: ‘Coloca, Senhor, uma guarda à minha boca, e um envoltório aos meus lábios’ (6). E: ‘Eu disse: ‘Vigiarei os meus caminhos, para que não peque pela língua’” (7).
Perguntaram-lhe: “Por que dez são os preceitos da Lei e nove as bem-aventuranças?” Respondeu: “O Decálogo traz o mesmo número que as pragas do Egito, enquanto a soma das bem-aventuranças representa uma tríplice imagem da Trindade”.
Ao mesmo perguntaram se basta um justo para aplacar a Deus. Respondeu: “Sim, pois Deus disse: ‘Procurei um só que pratique a equidade e justiça, e serei propício a todo o povo’” (1).
O mesmo disse: “Aos pecadores que fazem penitência, Deus perdoa mesmo o máximo, como à fornicária e ao publicano. Dos justos, porém, exige até mesmo juros. É isto o que o Senhor dizia aos Apóstolos nestes termos: ‘Se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus’” (2).
Dizia também isto: “Por muito pouco Deus vende as justiças aos que têm zelo para comprá-las, a saber: por um pedacinho de pão, por uma veste ordinária, por um copo de água fresca, por óbulo”.
Acrescentava também isto: “O homem que pede emprestado a outro, seja por motivo de pobreza, seja por necessitar de certa abundância, ao restituir, agradece, sim, mas é às ocultas que restitui, porque sente vergonha. O Senhor Deus, porém, procede ao contrário: toma emprestado às ocultas, e restitui em presença dos anjos, dos arcanjos e dos justos”.