Capítulo 1
Princípios Doutrinais
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Este desígnio universal de Deus em favor da salvação do género humano não se realiza apenas de um modo, por assim dizer, secreto na alma dos homens, nem só por meio de iniciativas, mesmo religiosas, pelas quais eles de muitos modos buscam a Deus, na expectativa de O encontrar apalpando, embora Ele não esteja longe de cada um de nós (cfr. Act 17, 27); porque estas iniciativas precisam de ser iluminadas e sanadas, ainda que, por benigna disposição da providência divina, possam ser por vezes consideradas como pedagogia para o Deus verdadeiro ou preparação evangélica. Ora, para estabelecer a paz, isto é, a comunhão com Ele, e para realizar a fraternidade entre os homens — que são pecadores —, Deus decidiu entrar na história humana de modo novo e definitivo, enviando o Seu Filho em nossa carne, para arrancar por Ele os homens do poder das trevas e de Satanás, e nEle reconciliar consigo o mundo. A Ele, pois, por quem fez também os séculos, constituiu-O herdeiro de todas as coisas, para tudo restaurar nEle.
Jesus Cristo foi enviado ao mundo como verdadeiro mediador entre Deus e os homens. Sendo Deus, «nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade» (Col 2, 9); segundo a natureza humana, é o novo Adão, cheio de graça e de verdade, constituído cabeça da humanidade renovada (cfr. Ef 1, 10). Assim, pois, o Filho de Deus percorreu os caminhos de uma verdadeira encarnação, para tornar os homens participantes da natureza divina; sendo rico, fez-se pobre por nosso amor, para que pela sua pobreza nos tornássemos ricos (cfr. 2 Cor 8, 9). O Filho do homem não veio para ser servido mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão, isto é, por todos (cfr. Mc 10, 45). Os Santos Padres proclamam constantemente que não é sanado o que não é assumido por Cristo. Ora, Ele assumiu a natureza humana completa, tal como existe em nós, miseráveis e pobres, mas sem o pecado (cfr. Heb 4, 15; 9, 28). De si mesmo disse Cristo, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo: «O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu; enviou-Me para evangelizar os pobres, sarar os contritos de coração, anunciar aos cativos a redenção e aos cegos a recuperação da vista» (Lc 4, 18).
O Senhor Jesus, desde o início, «chamou a Si aqueles que Ele quis, e constituiu doze, para estarem com Ele e para os enviar a pregar» (Mc 3, 13). Assim, os Apóstolos foram os germes do novo Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada hierarquia. Depois, uma vez consumados nEle, pela Sua morte e ressurreição, os mistérios da nossa salvação e da renovação de todas as coisas, o Senhor, que recebera todo o poder no céu e na terra (cfr. Mt 28, 18), antes de subir ao céu (cfr. Act 1, 11), fundou a sua Igreja como sacramento de salvação e enviou os Apóstolos ao mundo inteiro, como Ele próprio tinha sido enviado pelo Pai (cfr. Jo 20, 21), dizendo-lhes: «Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo quanto vos mandei» (Mt 28, 19-20). «Ide pelo mundo inteiro, pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer será condenado» (Mc 16, 15-16).
Esta missão prossegue e desenvolve no decurso da história a missão do próprio Cristo, que foi enviado a evangelizar os pobres. A Igreja, impelida pelo Espírito Santo, deve caminhar pela mesma via por que Cristo caminhou, isto é, a via da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação de si mesmo até à morte, da qual saiu vencedor pela sua ressurreição. Desta maneira caminharam todos os Apóstolos, que completaram na tribulação e no sofrimento o que falta à Paixão de Cristo, em favor do seu Corpo que é a Igreja (cfr. Col 1, 24). E muitas vezes o sangue dos cristãos foi semente de novos cristãos. A missão da Igreja cumpre-se, pois, pela acção em que ela, obedecendo ao mandato de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, se torna plenamente presente a todos os homens e povos, para os conduzir, pelo exemplo da vida, pela pregação, pelos sacramentos e pelos outros meios da graça, à fé, à liberdade e à paz de Cristo, e assim lhes abrir um caminho livre e seguro para a plena participação no mistério de Cristo.
Esta actividade missionária encontra a sua razão de ser na vontade de Deus, «que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que Se deu a Si mesmo em resgate por todos» (1 Tim 2, 4-6), «e não há salvação em nenhum outro» (Act 4, 12). É necessário, portanto, que todos se convertam a Ele, conhecido pela pregação da Igreja, e sejam incorporados, pelo baptismo, nEle e na Igreja, que é o Seu Corpo. O próprio Cristo, com efeito, «ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do baptismo, confirmou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo baptismo como por uma porta». Por isso, não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como necessária, contudo não quiserem entrar nela ou nela perseverar. Embora Deus possa, por caminhos de Si conhecidos, conduzir à fé, sem a qual é impossível agradar-Lhe, aqueles que sem culpa ignoram o Evangelho, compete todavia à Igreja a necessidade e ao mesmo tempo o direito sagrado de evangelizar.
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