Capítulo 7
Parte II — Cap. II: A Promoção do Progresso da Cultura
É próprio da pessoa humana o não ter acesso a uma vida verdadeira e plenamente humana senão mediante a cultura, isto é, cultivando os bens e valores da natureza. Em toda a parte em que se trata da vida humana, a natureza e a cultura encontram-se estreitamente ligadas. Com a palavra «cultura» indica-se, em sentido geral, tudo aquilo por meio do qual o homem apura e desenvolve as múltiplas capacidades do espírito e do corpo; se esforça por submeter a terra ao seu poder pelo conhecimento e pelo trabalho; torna mais humana a vida social, tanto na família como em toda a comunidade civil, mediante o progresso dos costumes e das instituições; e, finalmente, no decurso do tempo, exprime, comunica e conserva nas suas obras as grandes experiências espirituais e as grandes aspirações, para que possam servir ao progresso de muitos e até de toda a humanidade. Segue-se que a cultura humana comporta necessàriamente um aspecto histórico e social, e a palavra «cultura» toma muitas vezes um sentido sociológico e etnológico. Neste sentido, fala-se de pluralidade de culturas. De facto, do diverso modo de usar as coisas, de trabalhar, de se exprimir, de praticar a religião, de formar os costumes, de estabelecer leis e instituições jurídicas, de desenvolver as ciências e as artes e de cultivar o belo, nascem diferentes condições comuns de vida e diversas maneiras de dispor dos bens da existência. E assim, a partir dos costumes e tradições herdadas, constitui-se um património próprio de cada comunidade humana. E assim também se forma um ambiente definido e histórico no qual se insere o homem de cada nação ou época, e do qual retira os bens com que há-de promover a civilização e a cultura.
As condições de vida do homem moderno, no aspecto social e cultural, transformaram-se profundamente, de maneira que se pode falar de uma nova idade da história humana. Daqui, novos caminhos se abrem para aperfeiçoar e expandir a cultura. Estes caminhos foram preparados pelo enorme progresso das ciências naturais e humanas, incluindo as ciências sociais; pelo desenvolvimento das técnicas; e pelo progresso e melhor organização dos meios de comunicação entre os homens. A cultura actual apresenta, por isso, notas peculiares: as chamadas ciências exactas cultivam o sentido crítico ao máximo; os mais recentes estudos de psicologia explicam mais profundamente a actividade humana; as disciplinas históricas impelem com força a considerar as coisas sob o aspecto da sua mutabilidade e evolução; os hábitos de vida e os costumes tornam-se cada dia mais uniformes; a industrialização, a urbanização e as outras causas que promovem a vida comunitária criam novas formas de cultura (cultura de massas), das quais nascem novas maneiras de sentir, agir e repousar; o incremento das relações entre as diversas nações e grupos sociais abre a todos e a cada um os tesouros das diversas formas de cultura; e assim, pouco a pouco, se prepara uma forma mais universal de cultura humana, que tanto mais promove e exprime a unidade do género humano quanto melhor respeita as características das diversas culturas.
Aumenta cada vez mais o número dos homens e mulheres, de qualquer grupo ou nação, que são conscientes de serem os autores e promotores da cultura da sua comunidade. Cresce em todo o mundo o sentido da autonomia e ao mesmo tempo da responsabilidade, o que é de enorme importância para a maturidade espiritual e moral da humanidade. Isto aparece com mais clareza se tivermos diante dos olhos a unificação do mundo e o dever que se nos impõe de construir um mundo melhor na verdade e na justiça. Somos testemunhas do nascimento de um novo humanismo, no qual o homem se define antes de mais pela sua responsabilidade para com os irmãos e a história.
Nestas condições, não causa admiração que o homem, sentindo a sua responsabilidade no progresso da cultura, nutra uma esperança mais elevada, mas contemple simultaneamente com ansiedade as múltiplas antinomias existentes, que lhe cabe resolver. Que fazer para que a intensificação dos intercâmbios culturais, que deveria conduzir a um verdadeiro e frutuoso diálogo entre os diversos grupos e nações, não perturbe a vida das comunidades, não destrua a sabedoria dos antepassados nem ponha em perigo o carácter peculiar de cada povo? De que modo favorecer o dinamismo e a expansão da nova cultura, sem que se perca a viva fidelidade à herança das tradições? Esta questão é particularmente urgente quando é preciso harmonizar a cultura que resulta do enorme progresso da ciência e da técnica com a cultura que se nutre dos estudos clássicos segundo as diversas tradições. Como é que a tão rápida e progressiva dispersão das disciplinas particulares se pode harmonizar com a necessidade de elaborar uma síntese pessoal, e com o dever de conservar nos homens as faculdades de contemplação e admiração que conduzem à sabedoria? Que fazer para que todos os homens participem dos bens culturais no mundo, quando simultâneamente a cultura dos mais doutos se torna cada vez mais elevada e complexa? Finalmente, como reconhecer como legítima a autonomia que a cultura reivindica para si, sem se cair num humanismo puramente terrestre ou mesmo contrário à religião? No meio destas antinomias, é necessário desenvolver a cultura de modo que aperfeiçoe integralmente a pessoa humana e ajude os homens no cumprimento dos deveres a que são chamados, sobretudo os cristãos, fraternalmente unidos na única família humana.
Os cristãos, peregrinando para a cidade celeste, devem buscar e saborear as coisas do alto; o que, todavia, de modo algum diminui, antes aumenta a importância do seu dever de trabalhar com todos os homens na construção de um mundo mais humano. Com efeito, o mistério da fé cristã oferece-lhes excelentes incentivos e apoios para cumprirem com mais dedicação esse dever, e sobretudo para descobrirem o sentido pleno desta actividade, que confere à cultura humana o seu lugar eminente na vocação integral do homem. Quando o homem cultiva a terra com as suas mãos ou com o auxílio da técnica, para que ela dê fruto e se torne digna habitação de toda a família humana, e quando conscientemente toma parte na vida dos grupos sociais, cumpre o desígnio de Deus manifestado no princípio dos tempos, de submeter a terra e aperfeiçoar a criação, e cultiva-se a si mesmo; e ao mesmo tempo pratica o grande mandamento de Cristo, de se dedicar ao serviço dos seus irmãos. Além disso, o homem, ao aplicar-se ao estudo das diversas disciplinas, filosofia, história, matemáticas, ciências naturais, e ao cultivar as artes, pode contribuir enormemente para que a família humana se eleve aos mais nobres conceitos do verdadeiro, do bem e do belo e ao juízo do valor universal, e seja assim mais claramente iluminada pela admirável sabedoria que existia com Deus desde toda a eternidade, dispondo tudo com Ele, brincando sobre o orbe da terra, e cuja delícia é estar com os filhos dos homens. Desta maneira, o espírito humano, mais livre da sujeição às criaturas, pode mais facilmente ser elevado ao culto e à contemplação do Criador. Mais, pela moção da graça, dispõe-se a reconhecer o Verbo de Deus, que antes de se fazer carne para tudo salvar e recapitular em si, estava no mundo já como «a luz verdadeira que ilumina todo o homem» (Jo. 1,9-10).
Há múltiplas relações entre a mensagem da salvação e a cultura humana. Pois Deus, ao revelar-se ao seu povo até à plena manifestação de si mesmo no Filho encarnado, falou segundo a cultura própria de cada época. Do mesmo modo, a Igreja, vivendo no decurso dos tempos em condições diversas, utilizou as riquezas das diferentes culturas, para difundir e explicar na sua pregação a mensagem de Cristo a todos os povos, para a investigar e melhor compreender, e para mais perfeitamente a exprimir na celebração litúrgica e na vida da multiforme comunidade dos fiéis. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja, enviada a todos os povos de qualquer tempo ou região, não está ligada de modo exclusivo e indissolúvel a nenhuma raça ou nação, a nenhuma forma particular de vida, a nenhum costume antigo ou recente. Fiel à sua própria tradição e simultâneamente consciente da sua missão universal, é capaz de entrar em comunhão com as diversas formas de cultura, o que enriquece ao mesmo tempo a própria Igreja e as diversas culturas. A boa nova de Cristo renova constantemente a vida e a cultura do homem decaído, combate e elimina os erros e males provenientes da permanente sedução do pecado. Sem cessar, purifica e eleva a moralidade dos povos. Com riquezas do alto, fecunda como que por dentro as qualidades espirituais e as tradições de cada povo e de cada época, consolida-as, aperfeiçoa-as e restaura-as em Cristo. Desta maneira, a Igreja, cumprindo a sua própria missão, contribui por isso mesmo para a cultura humana e promove-a, e com a sua actividade, inclusive litúrgica, educa o homem na liberdade interior.
Pelas razões acima mencionadas, a Igreja recorda a todos que a cultura deve ser subordinada à perfeição integral da pessoa humana, ao bem da comunidade e de toda a sociedade humana. Por isso, é necessário cultivar o espírito de tal forma que se promovam as faculdades de admiração, de intuição, de contemplação, de formação dum juízo pessoal e de cultivo do sentido religioso, moral e social. Com efeito, a cultura, porque deriva imediatamente da natureza racional e social do homem, tem sempre necessidade de uma justa liberdade para se desenvolver, e de uma legítima autonomia para actuar segundo os próprios princípios. Tem portanto direito ao respeito e goza de uma certa inviolabilidade, salvos, bem entendido, os direitos da pessoa e da comunidade, particular ou universal, dentro dos limites do bem comum. O sagrado Concílio, recordando o que o Concílio Vaticano I ensinou, declara que há «duas ordens de conhecimento», distintas, a saber, a da fé e a da razão; e que a Igreja não proíbe que «as artes e disciplinas humanas usem dos seus próprios princípios e do seu próprio método, cada uma na sua esfera»; por isso, «reconhecendo esta justa liberdade», o Concílio afirma a legítima autonomia da cultura humana e especialmente das ciências. Tudo isto pede também que o homem, respeitando a ordem moral e o interesse comum, possa livremente buscar a verdade, manifestar e divulgar a sua opinião e cultivar qualquer arte; e exige, finalmente, que seja informado veraz e devidamente dos acontecimentos da vida pública.
Como actualmente se oferece a possibilidade de livrar a maior parte dos homens da miséria da ignorância, é dever particularmente adequado ao nosso tempo, sobretudo em relação aos cristãos, o de trabalhar com denodo para que tanto na economia como na política, tanto no campo nacional como no internacional, se tomem as decisões fundamentais graças às quais se reconheça por toda a parte e se torne efectivo o direito de todos a uma cultura humana conforme com a dignidade da pessoa, sem distinção de raça, sexo, nação, religião ou condição social. Por isso, é necessário garantir a todos uma quantidade suficiente de bens culturais, sobretudo daqueles que constituem a chamada «cultura de base», a fim de que um grande número de homens não fique impedido, pelo analfabetismo ou por falta dos meios necessários, de prestar a sua própria cooperação activa e pessoal ao bem comum. Devem, portanto, fazer-se esforços para que aqueles que são dotados de capacidade prossigam os estudos superiores; e isso de tal modo que, na medida do possível, possam obter na sociedade humana os cargos, funções e serviços correspondentes à sua competência e experiência adquirida. Deste modo, cada pessoa e os grupos sociais de cada povo poderão alcançar o pleno desenvolvimento da vida cultural, de acordo com as próprias qualidades e tradições. Devem ainda fazer-se todos os esforços para que cada um tome consciência do direito à cultura e do dever que lhe incumbe de se cultivar a si mesmo e de ajudar os outros. Existem por vezes condições de vida e de trabalho que impedem o esforço cultural dos homens e destroem neles o desejo de cultura. E isto é verdade de modo especial para os camponeses e operários, a quem devem ser proporcionadas condições de trabalho que não impeçam mas antes favoreçam o seu desenvolvimento cultural. As mulheres já participam em quase todos os sectores da vida; convém, porém, que possam desempenhar plenamente o seu papel, segundo a sua própria natureza. Cabe a todos reconhecer e promover a participação própria e necessária da mulher na vida cultural.
Actualmente, é mais difícil do que antes compor numa síntese os diversos ramos do conhecimento e das artes. Porque, ao mesmo tempo que aumenta o volume e a diversidade dos elementos constitutivos da cultura, diminui a capacidade de cada um para os apreender e harmonizar organicamente, de tal maneira que a imagem do «homem universal» se vai tornando cada dia mais evanescente. Todavia, permanece para cada homem o dever de conservar integralmente a estrutura total da personalidade humana, na qual sobressaem os valores do entendimento, da vontade, da consciência e da fraternidade; valores que se fundam todos em Deus Criador e que foram maravilhosamente restaurados e elevados em Cristo. A família é como que o primeiro lugar deste cultivo educativo: nela os filhos, num clima de amor, aprendem mais facilmente a verdadeira hierarquia das coisas, ao mesmo tempo que como que naturalmente se vão imprimindo no espírito dos adolescentes formas comprovadas de cultura. Para esta mesma educação, existem na sociedade actual possibilidades que são favorecidas pelo acréscimo de difusão do livro e pelos novos meios de comunicação cultural e social, os quais podem contribuir para a difusão de uma cultura universal. A progressiva redução do tempo de trabalho traz consigo um aumento de tempo livre, que muitos podem empregar utilmente na cultura do espírito e no descanso do corpo e da mente, por meio de viagens a outros países (turismo), exercícios e acontecimentos desportivos, e outras diversões; e também através do estudo e da meditação. O próprio tempo livre pode proporcionar oportunidade para reflexão, contemplação e mesmo formação religiosa. A Igreja recorda que a actividade cultural e sobretudo o estudo das ciências e das artes, não são elementos estranhos ao espírito, mas quando são levados a cabo com o devido respeito pela ordem moral, contribuem eficazmente para elevar a alma a Deus.
Embora a Igreja muito tenha contribuído para o progresso da cultura, todavia a experiência mostra que, por razões contingentes, a harmonia entre a cultura e a formação cristã nem sempre se realiza sem dificuldades. Estas dificuldades não prejudicam necessàriamente a vida da fé; antes podem estimular o espírito a uma mais cuidadosa e profunda compreensão da mesma fé. De facto, as recentes investigações e descobertas das ciências, da história e da filosofia levantam novos problemas, que arrastam consigo consequências práticas e exigem novas investigações teológicas. Mais: os teólogos são convidados, dentro dos limites dos métodos e exigências da teologia, a procurar constantemente uma maneira mais adequada de comunicar a doutrina àqueles do seu tempo; porque uma coisa é o depósito ou as verdades da fé, outra o modo como se exprimem, conservando-se, contudo, o mesmo sentido e significado. Na cura pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente não só os princípios teológicos mas também as descobertas das ciências profanas, sobretudo da psicologia e da sociologia, para que também os fiéis sejam levados a uma mais pura e madura vida de fé. A literatura e as artes são também, à sua maneira, de grande importância para a vida da Igreja. Procuram exprimir a natureza própria do homem, os seus problemas e experiências nos esforços para se conhecer e aperfeiçoar a si mesmo e ao mundo; e tentam descobrir a sua situação na história e no universo, apresentar as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e descrever um melhor destino humano. Podem assim elevar a vida humana, expressa em múltiplas formas, segundo os tempos e as regiões. Devem, por isso, fazer-se esforços para que os artistas se sintam compreendidos pela Igreja nas suas actividades e, gozando de uma ordenada liberdade, possam mais facilmente estabelecer contactos com a comunidade cristã. Sejam também reconhecidas pela Igreja as novas formas artísticas, adaptadas ao nosso tempo, segundo a índole das diversas nações e regiões. Admitam-se nos templos, quando, com linguagem adequada e conforme com as exigências litúrgicas, elevam o espírito a Deus. Desta maneira, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado, a pregação do Evangelho torna-se mais acessível à inteligência dos homens e aparece como que incarnada na sua vida quotidiana. Vivam, portanto, os fiéis em estreita união com os homens do seu tempo e procurem entender perfeitamente os seus modos de pensar e de sentir, tal como se exprimem pela cultura. Associem os conhecimentos das novas ciências, doutrinas e inventos recentes com os costumes e ensinamentos cristãos, de modo que a prática religiosa e a moralidade caminhem neles a par com os conhecimentos científicos e o progresso técnico incessante; e assim poderão apreciar e interpretar todas as coisas com sentido integralmente cristão. Aqueles que se dedicam às ciências teológicas nos seminários e universidades apliquem-se em colaborar com os peritos das outras ciências, reunindo e coordenando as suas forças. A investigação teológica, ao mesmo tempo que busca a verdade profunda da revelação, não descure o contacto com o seu tempo, a fim de poder ajudar os homens versados nas diversas ciências a alcançarem um mais completo conhecimento da fé. Esta colaboração será muito útil para a formação dos ministros sagrados, que poderão assim apresentar aos nossos contemporâneos a doutrina da Igreja acerca de Deus, do homem e do mundo, de maneira mais adaptada, e por eles mais facilmente recebida. É mesmo de desejar que numerosos leigos adquiram uma formação conveniente nas ciências sagradas, e que muitos deles se dediquem profissionalmente a estes estudos e os aprofundem. Mas, para poderem cumprir a sua missão, deve-se reconhecer a todos os fiéis, clérigos ou leigos, a justa liberdade de investigação e de pensamento, assim como a justa liberdade de manifestar humildemente e com coragem as suas opiniões, naquelas matérias em que são competentes.