Capítulo 6
Os Religiosos
Os conselhos evangélicos da castidade consagrada a Deus, da pobreza e da obediência, fundados nas palavras e exemplos do Senhor, e recomendados pelos Apóstolos, pelos Padres, pelos doutores e pastores da Igreja, são um dom divino, que a Igreja recebeu do seu Senhor e que, com a Sua graça, conserva sempre. A autoridade da Igreja, sob a direcção do Espírito Santo, tratou de os interpretar, regulou a sua prática e estabeleceu também formas estáveis de vida sobre eles fundadas. Aconteceu assim que, como numa árvore maravilhosamente ramificada no campo do Senhor, a partir de uma semente dada por Deus, se desenvolveram diversas formas de vida solitária ou comunitária e diversas famílias, que se multiplicam para proveito dos seus membros e para bem de todo o Corpo de Cristo. Estas famílias oferecem aos seus membros os meios de maior estabilidade no seu género de vida, uma doutrina experimentada para alcançar a perfeição, uma comunhão fraterna na milícia de Cristo e uma liberdade fortalecida pela obediência, a fim de que possam fielmente cumprir a sua profissão religiosa e avançar alegremente no caminho da caridade. Tal estado, em relação à constituição divina e hierárquica da Igreja, não é intermédio entre a condição do clérigo e a do leigo; de um e de outro lado, alguns fiéis cristãos são chamados por Deus a desfrutar deste dom particular na vida da Igreja e a contribuir, cada um a seu modo, para a sua missão salvífica.
O cristão, pelos votos ou por outros vínculos sagrados, por sua natureza assimilados aos votos, pelos quais se obriga à prática dos três supraditos conselhos evangélicos, consagra-se totalmente a Deus sumamente amado, de modo que se ordena ao serviço de Deus e à Sua honra por um título novo e especial. Já pelo Baptismo morrera ao pecado e fora consagrado a Deus; mas, para poder colher frutos mais abundantes da graça baptismal, pretende, pela profissão dos conselhos evangélicos na Igreja, libertar-se dos impedimentos que o poderiam afastar do fervor da caridade e da perfeição do culto divino e consagra-se mais intimamente ao serviço de Deus. A consagração será tanto mais perfeita quanto, por vínculos mais firmes e mais estáveis, melhor representar Cristo unido à Sua Esposa, a Igreja, por laço indissolúvel. Como os conselhos evangélicos, por meio da caridade para que conduzem, unem de modo especial os seus seguidores à Igreja e ao seu mistério, a vida espiritual destes deve também dedicar-se ao bem de toda a Igreja. Daí resulta o dever de trabalharem, segundo as forças e a forma da própria vocação, quer pela oração, quer também pela acção generosa, em radicar e consolidar nos corações o reino de Cristo e em dilatá-lo por toda a terra. Por esta razão, a Igreja defende e promove a índole peculiar dos vários institutos religiosos. A profissão dos conselhos evangélicos aparece, assim, como um sinal que pode e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja ao cumprimento generoso dos deveres da vocação cristã. Pois como o Povo de Deus não tem aqui cidade permanente, mas busca a futura, o estado religioso, que liberta mais os seus seguidores das preocupações terrestres, manifesta melhor a todos os crentes os bens celestes, já presentes neste mundo, e dá testemunho da vida nova e eterna adquirida pela redenção de Cristo, e preanuncia a futura ressurreição e a glória do reino celeste. Além disso, o mesmo estado imita mais de perto e representa continuamente na Igreja aquele género de vida que o Filho de Deus escolheu ao vir a este mundo para cumprir a vontade do Pai e que propôs aos discípulos que O seguiam. Finalmente, manifesta de modo especial a elevação do reino de Deus acima de todas as coisas terrestres e as suas exigências supremas; mostra também a todos a soberana grandeza do poder de Cristo reinante e a potência infinita do Espírito Santo que opera maravilhas na Igreja.
Já que pertence à hierarquia eclesiástica apascentar o Povo de Deus e conduzi-lo a pastagens ubérrimas (cfr. Ez. 34,14), cumpre-lhe dirigir sabiamente com as suas leis a prática dos conselhos evangélicos, por meio dos quais a caridade para com Deus e o próximo é singularmente fomentada. A mesma hierarquia, seguindo docilmente o impulso do Espírito Santo, recebe as regras propostas por varões e mulheres insignes, e, depois de mais perfeitamente ordenadas, as aprova autenticamente; além disso, está presente com a sua autoridade vigilante e tutelar junto dos institutos erigidos por toda a parte para a edificação do corpo de Cristo, a fim de que cresçam e floresçam segundo o espírito dos fundadores. Para melhor satisfazer as necessidades de todo o rebanho do Senhor, o Romano Pontífice, em virtude do seu primado sobre toda a Igreja, pode isentar da jurisdição dos Ordinários dos lugares qualquer instituto de perfeição e os seus membros em particular, sujeitando-os unicamente à sua autoridade; de modo semelhante, podem ser deixados ou confiados aos cuidados das autoridades patriarcais. Os próprios membros destes institutos, ao cumprirem o dever para com a Igreja, que decorre da sua forma particular de vida, prestem obediência e reverência aos Bispos, segundo as leis canónicas, por causa da sua autoridade pastoral nas igrejas particulares e por causa da necessária unidade e harmonia no trabalho apostólico.
Os religiosos empenhem-se por que, através deles, a Igreja mostre cada vez melhor Cristo aos fiéis e infiéis: Cristo na contemplação do monte, ou anunciando o reino de Deus às turbas, ou curando os doentes e enfermos e convertendo os pecadores ao bom caminho, ou abençoando as crianças e fazendo bem a todos, mas sempre obediente à vontade do Pai que O enviou. Saibam todos, finalmente, que a profissão dos conselhos evangélicos, embora implique a renúncia de bens certamente muito estimáveis, não constitui, contudo, obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento da pessoa humana; antes, por sua natureza, o favorece grandemente. Com efeito, os conselhos evangélicos, voluntariamente abraçados segundo a vocação pessoal de cada um, contribuem não pouco para a purificação do coração e a liberdade espiritual; estimulam continuamente o fervor da caridade e, sobretudo, são capazes de conformar cada vez mais o cristão ao género de vida virginal e pobre que Cristo Nosso Senhor escolheu para Si e que a Virgem Sua Mãe abraçou, como o demonstra o exemplo de tantos santos fundadores. Ninguém pense que os religiosos, pela sua consagração, se tornam estranhos aos homens ou inúteis na cidade terrestre. Pois, embora nem sempre ajudem directamente os seus contemporâneos, mantêm-nos contudo presentes de modo mais profundo no amor de Cristo, e com eles cooperam espiritualmente, para que a edificação da cidade terrestre se funde sempre no Senhor e para Ele se ordene, e para que não trabalhem em vão os que a edificam.
Todos os que foram chamados à prática dos conselhos evangélicos cuidem com diligência de perseverar e sobressair naquela vocação a que Deus os chamou, para maior santidade da Igreja e para maior glória da Trindade una e indivisa, a qual em Cristo e por Cristo é a fonte e a origem de toda a santidade.