Capítulo 1
Princípios Católicos do Ecumenismo
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A Igreja católica, hoje como ontem, ensina, confessando com o sagrado Concílio de Niceia, que o seu fundamento é a fé no Deus uno e trino: creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas. Por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus. O Filho de Deus, Redentor do género humano, que com a Encarnação fez de certo modo a união com todos os homens, enviou o Espírito vivificante sobre os discípulos, e por Ele constituiu o seu Corpo, que é a Igreja, como sacramento universal de salvação. Sentado à direita do Pai, opera continuamente no mundo para conduzir os homens à Igreja e, por meio dela, uni-los mais estreitamente a Si, alimentando-os com o seu próprio Corpo e Sangue e tornando-os participantes da sua vida gloriosa.
A restauração da unidade entre todos os cristãos é daquelas coisas que o sagrado Concílio propõe como um dos seus principais desígnios. Cristo Senhor, de facto, fundou uma só e única Igreja. Contudo, muitas comunhões cristãs se apresentam aos homens como a verdadeira herança de Jesus Cristo. Os seus membros confessam-se discípulos do Senhor, mas divergem de sentimentos e caminham por vias diversas, como se Cristo estivesse dividido. Esta divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo, constitui um escândalo para o mundo e prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura. O Deus da misericórdia, porém, que há muito inspirou nos cristãos divididos entre si um arrependimento pela divisão e o desejo de unidade, suscitou por toda a parte um vasto movimento ecuménico, ao qual o Espírito Santo convida os fiéis católicos a participarem com caridade e prudência.
Toda a Igreja, tanto os fiéis como os pastores, é chamada a esta renovação interna, para que nela brilhe mais claramente o sinal de Cristo. A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma permanente de que ela, como instituição terrena e humana, tem perpétua necessidade. Se, pois, segundo as circunstâncias dos tempos, algumas coisas foram menos diligentemente observadas, quer nos costumes, quer na disciplina eclesiástica, quer nos modos de apresentar a doutrina — o que deve distinguir-se cuidadosamente do próprio depósito da fé —, devem ser devida e oportunamente restauradas. Esta renovação tem, portanto, singular importância ecuménica. Os vários modos pelos quais a vida da Igreja já se vai renovando, como o movimento bíblico e litúrgico, a pregação da palavra de Deus e a catequese, o apostolado dos leigos, as novas formas de vida religiosa, a espiritualidade do matrimónio, a doutrina e actividade social da Igreja, devem considerar-se como garantias e como bons augúrios dos futuros progressos do ecumenismo.
Não existe verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Com efeito, os desejos de unidade provêm e amadurecem da renovação da mente, da abnegação própria e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do Espírito Santo a graça de uma sincera abnegação, da humildade e mansidão no servir e de uma fraterna generosidade de alma para com os outros. O Apóstolo das gentes diz: «Eu, preso no Senhor, exorto-vos a que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos mutuamente na caridade, esforçando-vos por conservar a unidade do espírito no vínculo da paz» (Ef 4, 1-3). Esta exortação dirige-se sobretudo àqueles que foram elevados à sagrada Ordenação para dar continuidade à missão de Cristo, o qual entre nós «não veio para ser servido, mas para servir» (Mt 20, 28).
É necessário que os fiéis católicos reconheçam com alegria e estimem os bens verdadeiramente cristãos, provenientes do património comum, que se encontram nos nossos irmãos de nós separados. É justo e salutar reconhecer as riquezas de Cristo e as obras virtuosas na vida de outros que dão testemunho de Cristo, por vezes até ao derramamento do sangue. Porque Deus é sempre admirável e as suas obras dignas de admiração. Além disso, não se deve esquecer que tudo o que é realizado pela graça do Espírito Santo nos irmãos separados pode contribuir para a nossa edificação. Tudo o que é verdadeiramente cristão nunca se opõe aos genuínos bens da fé; antes, tudo pode contribuir para que o próprio mistério de Cristo e da Igreja seja mais perfeitamente compreendido.
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