Capítulo 6
Na Escola de Maria, Mulher «Eucarística»
Se quisermos redescobrir em toda a sua riqueza a relação íntima entre a Igreja e a Eucaristia, não podemos esquecer Maria, Mãe e modelo da Igreja. Na carta apostólica Rosarium Virginis Mariæ, depois de indicar a Virgem Santíssima como Mestra na contemplação do rosto de Cristo, inseri também entre os mistérios da luz a instituição da Eucaristia. Com efeito, Maria pode guiar-nos para o Santíssimo Sacramento porque tem uma profunda ligação com ele. À primeira vista, o Evangelho nada diz a tal respeito. A narração da instituição, na noite de Quinta-feira Santa, não fala de Maria. Mas sabe-se que Ela estava presente no meio dos Apóstolos, quando, «unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração» (Act 1, 14), na primeira comunidade que se reuniu depois da Ascensão à espera do Pentecostes. E não podia certamente deixar de estar presente, nas celebrações eucarísticas, no meio dos fiéis da primeira geração cristã, que eram assíduos à «fracção do pão» (Act 2, 42). Para além da sua participação no banquete eucarístico, pode-se delinear a relação de Maria com a Eucaristia indirectamente a partir da sua atitude interior. Maria é mulher «eucarística» na totalidade da sua vida. A Igreja, vendo em Maria o seu modelo, é chamada a imitá-La também na sua relação com este mistério santíssimo.
Mysterium fidei! Se a Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto a nossa inteligência que nos obriga ao mais puro abandono à palavra de Deus, ninguém melhor do que Maria pode servir-nos de apoio e guia nesta atitude de abandono. Todas as vezes que repetimos o gesto de Cristo na Última Ceia dando cumprimento ao seu mandato: «Fazei isto em memória de Mim», ao mesmo tempo acolhemos o convite que Maria nos faz para obedecermos a seu Filho sem hesitação: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). Com a solicitude materna manifestada nas bodas de Caná, Ela parece dizer-nos: «Não hesiteis, confiai na palavra do meu Filho. Se Ele pôde mudar a água em vinho, também é capaz de fazer do pão e do vinho o seu corpo e sangue, entregando aos crentes, neste mistério, o memorial vivo da sua Páscoa e tornando-se assim "pão de vida"».
De certo modo, Maria praticou a sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus. A Eucaristia, ao mesmo tempo que evoca a paixão e a ressurreição, coloca-se no prolongamento da encarnação. E Maria, na anunciação, concebeu o Filho divino também na realidade física do corpo e do sangue, em certa medida antecipando n'Ela o que se realiza sacramentalmente em cada crente quando recebe, no sinal do pão e do vinho, o corpo e o sangue do Senhor. Existe, pois, uma profunda analogia entre o fiat pronunciado por Maria, em resposta às palavras do Anjo, e o amém que cada fiel pronuncia quando recebe o corpo do Senhor. A Maria foi-Lhe pedido para acreditar que Aquele que Ela concebia «por obra do Espírito Santo» era o «Filho de Deus» (cf. Lc 1, 30-35). Dando continuidade à fé da Virgem Santa, no mistério eucarístico é-nos pedido para crer que aquele mesmo Jesus, Filho de Deus e Filho de Maria, Se torna presente nos sinais do pão e do vinho com todo o seu ser humano-divino. «Feliz d'Aquela que acreditou» (Lc 1, 45): Maria antecipou também, no mistério da encarnação, a fé eucarística da Igreja. E, na visitação, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo Ela serve de «sacrário» — o primeiro «sacrário» da história —, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, Se presta à adoração de Isabel, como que «irradiando» a sua luz através dos olhos e da voz de Maria. E o olhar extasiado de Maria, quando contemplava o rosto de Cristo recém-nascido e O estreitava nos seus braços, não é porventura o modelo inatingível de amor a que se devem inspirar todas as nossas comunhões eucarísticas?
Ao longo de toda a sua existência ao lado de Cristo, e não apenas no Calvário, Maria viveu a dimensão sacrificial da Eucaristia. Quando levou o menino Jesus ao templo de Jerusalém, «para O apresentar ao Senhor» (Lc 2, 22), ouviu o velho Simeão anunciar que aquele Menino seria «sinal de contradição» e que uma «espada» havia de trespassar também a alma d'Ela (cf. Lc 2, 34-35). Assim foi vaticinado o drama do Filho crucificado e de algum modo prefigurado o «stabat Mater» aos pés da Cruz. Preparando-Se dia a dia para o Calvário, Maria vive uma espécie de «Eucaristia antecipada», dir-se-ia uma «comunhão espiritual» de desejo e oferta, que a tornava «mãe não só segundo a carne, mas também segundo a fé» na formação do corpo místico do Filho. Aos pés da Cruz, quando Jesus «entregou a alma» (Jo 19, 30), o seu último gesto foi consignar à Igreja, representada por Maria e por João, aquela oblação de Si mesmo que, pouco depois, seria renovada na Eucaristia: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19, 26). Maria acolhe o seu novo «filho», o Apóstolo do «discípulo predilecto», mas também acolhe toda a Igreja, expressa no símbolo do discípulo «que Jesus amava». E o «filho» acolhe a Mãe, assumindo a responsabilidade de a «receber em sua casa» (Jo 19, 27). Trata-se de um novo parto: da Cruz sai a Igreja, gerada no sangue e na água que brotam do lado aberto do Crucificado (cf. Jo 19, 34).
«Magnificat anima mea Dominum...». Ao visitar Isabel, Maria sente brotar do seu coração o cântico do Magnificat (cf. Lc 1, 46-55). A Eucaristia foi-nos dada para que a nossa vida seja, como a de Maria, toda um Magnificat.
«Ave verum corpus natum de Maria Virgine!» Há poucos anos, celebrei o cinquentenário da minha ordenação sacerdotal. Experimento hoje a graça de oferecer à Igreja esta encíclica sobre a Eucaristia neste vigésimo quinto ano do meu ministério petrino. Faço-o com o coração cheio de gratidão. Há mais de meio século, cada dia, desde aquela 2 de Novembro de 1946 em que celebrei a minha primeira Missa na cripta de S. Leonardo, na catedral do Wawel em Cracóvia, os meus olhos se concentraram na hóstia e no cálice, onde o tempo e o espaço de certo modo se «contraíram» e o drama do Gólgota se tornou novamente presente com vivacidade, desvelando a sua misteriosa «contemporaneidade». Cada dia a minha fé me fez reconhecer no pão e no vinho consagrados o divino Viandante que um dia caminhou ao lado dos dois discípulos de Emaús para abrir-lhes os olhos à luz e o coração à esperança (cf. Lc 24, 13-35).