Capítulo 11
Conclusão
É nosso desejo que o que propusemos, tirado do tesouro da doutrina da Igreja, ajude todos os homens do nosso tempo, quer acreditem em Deus, quer não O conheçam explicitamente, a perceberem com mais clareza a plenitude da sua vocação, a tornarem o mundo mais conforme com a eminente dignidade do homem, a procurarem uma fraternidade universal com bases mais profundas e, sob o impulso do amor, a responderem com um esforço generoso e conjunto às urgentes exigências do nosso tempo. É certo que, perante a imensa variedade de situações e formas de cultura no mundo, esta exposição, em muitos dos seus pontos, não tem, deliberadamente, senão um carácter geral; mais, embora proponha uma doutrina já reconhecida na Igreja, como se trata muitas vezes de realidades sujeitas a contínua evolução, terá necessàriamente de ser continuada e ampliada. Confiamos, todavia, que muito do que dissemos, apoiando-nos na palavra de Deus e no espírito do Evangelho, pode trazer a todos uma ajuda preciosa, sobretudo depois que os cristãos tiverem adaptado ao espírito e às condições próprias de cada povo e mentalidade a orientação geral aqui proposta, sob a guia dos seus Pastores.
Em virtude da missão que lhe compete, de iluminar o orbe inteiro com a mensagem evangélica e de reunir num só Espírito todos os homens, de qualquer nação, raça ou cultura, a Igreja torna-se sinal daquela fraternidade que permite e consolida o diálogo sincero. O que exige, em primeiro lugar, que na própria Igreja se promovam a estima, a reverência e a concórdia mútuas, com o pleno reconhecimento das diferenças legítimas, a fim de se estabelecer um colóquio cada vez mais frutuoso entre todos os membros do Povo de Deus, quer sejam pastores quer restantes fiéis cristãos. O que une os fiéis é muito mais forte do que aquilo que os separa: haja unidade no necessário, liberdade no duvidoso, e em tudo a caridade. O nosso pensamento abraça igualmente aqueles irmãos e suas comunidades, que ainda não vivem em plena comunhão connosco, mas aos quais estamos unidos pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo e pelo vínculo da caridade; e não nos esquecemos de que a unidade dos cristãos é hoje esperada e desejada também por muitos dos que não crêem em Cristo. Porque, quanto mais esta unidade progredir na verdade e no amor, por virtude do Espírito Santo, tanto mais se tornará um penhor de unidade e de paz para todo o mundo. Conjuguemos, pois, as nossas forças e adoptemos modalidades cada vez mais eficazes e adequadas para alcançar hoje efectivamente este nobilíssimo objectivo; conformando-nos cada dia mais com o Evangelho, cooperemos fraternalmente ao serviço da família humana, que é chamada a tornar-se, em Cristo Jesus, a família dos filhos de Deus. Dirigimos igualmente o nosso pensamento a todos os que reconhecem Deus e guardam nas suas tradições preciosos elementos de religião e de humanidade; desejamos que um diálogo aberto nos leve a todos a receber fielmente os impulsos do Espírito e a secundá-los com ardor. O desejo de estabelecer um tal diálogo, conduzido pelo único amor da verdade, e com a devida prudência, não exclui ninguém, da nossa parte: nem os que cultivam os belos dons do espírito humano, embora não reconheçam ainda o seu Autor; nem os que se opõem à Igreja e de diversos modos a perseguem. Dado que Deus Pai é princípio e fim de todos, somos todos chamados a ser irmãos. E, por isso, com esta vocação humana e divina, podemos e devemos, sem violência e sem dolo, cooperar na construção do mundo em verdadeira paz.
Lembrando-se das palavras do Senhor: «nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo. 13,35), os cristãos não podem desejar nada mais ardentemente do que servir com crescente generosidade e eficácia os homens do mundo de hoje. Por isso, aderindo fielmente ao Evangelho e beneficiando das suas forças, unidos a todos os que amam e praticam a justiça, assumiram uma imensa tarefa a realizar nesta terra, da qual deverão prestar contas Àquele que há-de julgar todos os homens no último dia. Não são os que dizem «Senhor, Senhor» que entrarão no reino dos céus, mas os que fazem a vontade do Pai e põem corajosamente mãos à obra. Quer, pois, o Pai que em todos os homens reconheçamos e amemos efectivamente Cristo como nosso irmão, tanto com as palavras como com as obras, dando assim testemunho da verdade, e que comuniquemos com os outros o mistério do amor do Pai celeste. Deste modo, por toda a terra, os homens serão levados a uma viva esperança, que é dom do Espírito Santo, para que finalmente sejam admitidos na paz e felicidade supremas, na pátria que resplandece com a glória do Senhor. «Àquele que é poderoso para fazer muito mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, pela sua força que opera em nós — a Ele a glória na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações do século dos séculos. Ámen» (Ef. 3, 20-21).